Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

EUROS, ESCUDOS E PATACAS

 O Manguito de Bordalo Pinheiro

 
Uma moeda boa é aquela que junta uma cara simpática e risonha a um reverso com valor anímico. Porque há aquela que apresenta um verso atrativo e apelativo a um anverso cheio de podridão moral. Ninguém sabe qual é a boa e a podre, dado que só o tempo a carateriza, só um lustro ou dois permite dizer: olha essa é mesmo a boa, e a outra pertence ao grupo dos malabaristas. É assim que se distinguem as moedas com tempo, é assim que elas valem o que valem, com conhecimento prático no exercício da cidadania, e não o que alguém a certo momento diz, porque julga que vale tudo, sabe tudo, e pode convencer meio mundo quem é fiável. Este é um momento falacioso, cheio de vaidade e autoconvencimento, uma inutilidade retórica, uma afirmação ingénua, um momento perdulário, um bafo crédulo, tão efémero que morre no espaço de uma década. Olhem-lhe a pose, ela diz tudo, diz que estamos em presença dum putativo ilusionista, não passa de um trapaceiro igual aos que acolhe e protege, salvo outros que não mereceriam tal elenco. Ainda por cima a presidência condecora quem não merece nenhuma consideração pública. Julgador e julgado, depois de desmascarados, esperneiam, mas, ao fazê-lo, enlameiam-se mais com a porcaria espargida. Passam a valer menos que um euro, ainda muito menos que um escudo, ou ficam muito aquém da folclórica antiga pataca macaense.
 
Causa-me um certo horror e aversão genética esta pessoas autoconvencidas que abrem a boca como se fossem espíritos iluminados, espertos que nem chicos. Falam constantemente de avisos que fizeram e não foram ouvidos, empertigam-se, e odeiam de morte os opositores por mais inteligentes ou avisados que sejam. O crítico para o autoconvencido é um alvo a abater. É esta uma caraterística das mentes autoritárias em tempo de moderação e contenção, ou de democracia. E esta democracia mal nascida e mal cultivada, é isto que foi cultuando nas suas vísceras recém modeladas. O rancor e o ódio estão patentes nas mais altas esferas do Estado. Defeitos que o Povo tolerou enquanto não começou a sofrer no bolso, já com pouco ou nenhum dinheiro sobejante, os efeitos dos desmandos e megalomanias das elites governativas passadas. Hoje não tolera mais, indigna-se, revolta-se; ora são estas reações as que vamos assistir nos próximos tempos até que tudo esteja reposto no seu devido lugar, se é que a Nação não vai assistir nas próximas duas décadas ao colapso total.
 
Antigamente a pobreza e a dificuldade, a tenacidade e o sacrifício, o esforço e a subida a pulso eram dons de deuses; hoje são dons de Belzebu, porém muitos hão de recordar-se que da pobreza e da luta contra as vicissitudes nas adversas condições de sobrevivência, nasceram e formaram-se grandes homens, íntegros, moralmente capazes de liderar na Política e na sociedade. Hoje assiste-se ao contrário, eles já estão à partida, podres de suspeição, principalmente porque há exemplos que lembram o diabo. De repente, aparecem ricos, riquíssimos, e ao analisar-se o percurso rápido dessa riqueza superabundante, é dado verificar-se que está carregada de façanhas anormais fraudulentas, resultado de conluios dolosos, cambalachos, falcatruas, cheiram a corrupção de alto coturno, grupal em vários setores do organismos do Estado, de actividades ocultas em associação clandestina, desvios colossais de dinheiro para paraísos fiscais, alçapões de dolo, favorecimento protegido por uma Justiça habilidosa e propositadamente mal legislada, também em alguns casos, corrupta e conivente, conforme é comprovadamente reconhecida e caricaturada, uma verdadeira máfia mal cheirosa e abjurada e que nos deixa abismados. Condecorados certos agentes políticos, por condutas exemplares, mal selecionados contagiam todo o elenco já distinguido; haveria razão para quem quem recebeu essa distinção a soubesse devolver à procedência que os distinguiu por parecer ser farinha conjunta do mesmo saco; seria este um gesto nobre que limparia a galeria indistinta.
 
Outrora, o exercício da Política já foi em certos momentos curtos da nossa História, um mester nobre e dignificado. A exigência foi outra, a acutilância na distinção entre os homens não sofria da miopia hodierna, nem do psicoarquétipo horroroso desta ganância de atingir o poder pela fortuna e influência palacianas. Era um exercício mais ou menos puro, equilibrado, fácil de notar e comprovar; hoje é uma nuvem negra, putrefata e ricamente ornamentada. É um exercício representado por mestres na manipulação, na dissimulação, nas artes do ludibrio e do malefício. Nunca o mundo foi tão evoluído na prática do dolo, da corrupção e da sofisticação, a autêntica prática do teatro político mais recente.
 
Quem está a pagar o preço da moeda podre é o Povo, na sua maioria, que a tolerou e sustentou até agora. E quanto mais árduo for o fardo, melhor será a aprendizagem para todos: estamos a aprender alguma coisa acerca do nosso desleixo, do laxismo e da incorrigível indiferença. Ninguém tem nada que se queixar, sofre o que merece, e enquanto  merecer, até ganhar algum juízo na cabecinha de vento, também esta afectada pela ambiência.
Dizia alguém ilustre há pouco tempo numa TV mais ou menos independente (hoje já não há certezas de nada, é tudo mais ou menos), que o sul da Europa não está talhado para imitar as democracias do norte; essas servem os seus povos porque eles as conquistaram por merecimento próprio gradualmente com dificuldade e tenacidade. O sul é caraterizadamente diferente, é preguiçoso, laxista, 'bon-vivant', precisa de autoridade reforçada, meia ou quase inteira ditadura. Ora esta conclusão, ainda que não seja divulgada nos media estatais, é um caso para refletir, e caso para não deixar de se medir bem o que isto quer dizer. Pois se o sul não merece a democracia, porque nunca a mereceu e pouco fez por merecê-la, e se esta é um luxo que os povos periféricos desta Europa incipiente não comportam na sua camioneta, então mais vale que se comece a pensar em mudar de regime. Ela é um luxo demasiado caro e improdutivo, e, ademais, também nos empobrece a todos. Especialmente, sacrifica toda a sociedade, numa regressão de quase um século, à submissão absurda a uma Finança voraz e impune, que se rege unicamente por cifrões sem contemplação pelas pessoas que a enriqueceram e enriquecem sem limites nem padrões humanos. Nesta tem-se usado e abusado da moeda pobre sem um rosto respeitável. Um luxo oportunisticamente aproveitado pela sacanagem à solta. Não é certamente exagerado se se disser que nela se constituíram elites de compadrio escondido muito protegido; favores levados e distinguidos no altar da Pátria que deveria merecer mais respeito e ponderação. E, de facto, uma democracia exercida sem Ética não pode sobreviver para além de duas ou três décadas; na verdade, esta já rebenta pelas costuras; e é tempo de dizer - basta de tanto desvario.
Concluindo, há uma nota que não posso deixar de registar com gosto aqui e agora. Muitos são, no tempo atual, os que se empenham em denunciar a corrupção que campeia na esfera governativa. São já muitos os que sofrendo na sua sobrevivência os efeitos de uma crise que os abalou, insurgem-se contra o estado do Estado. Pois, que não baixem os braços, que não cedam ao desânimo ou à renúncia dos seus ideais! É hora de cerrar fileiras, de exigir mais transparência e o fim dos privilégios e mordomias. O que se gasta na máquina do Estado é aviltante, é escandaloso, é depradador de recursos que pertencem ao erário público, suportado pelos contribuintes pagadores que não avaliam os prejuizos e os desperdícios da má governação; desta folia que foi e que é. Se quisermos ter uma democracia moderna, olhem para o norte da Europa, mas imitem-lhes, outrossim, a pureza dos dos seus ideais, a exigência feita à Política, a transparência das suas instituições, a sua meticulosa vigilância do escrúpulo. Sem isto nunca mais seremos gente a merecer o que admiramos. Efetivamente, o exemplo terá de vir de cima, e nunca o contrário. E enquanto não interiorizarmos estes modelos sociais, não merecemos o que reclamamos. Com a consequência de sermos sempre - politicamente - um exemplo execrável aos olhos dos povos mais evoluídos.
 
sinto-me: normal
música: Antena 2
publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 16:39
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