Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

O ANTIPOETA E O SÍMIO

de Rodrigo da Silva

 

Esta crónica foi motivada por uma poeta chamada Eliane Triska, conhecida no Brasil e em Portugal (e não só), destacando-se esta esteta de muitas que escrevem supostamente “poesia” (que não é poesia), mas prosa poética. Ela é uma poetisa que entrou em cirandas, subgénero literário no qual vários poetas glosam um ‘mote’ que é normalmente uma ideia sintetizada num título e todos versejam  sobre o tema em questão; como acontecia e acontece nas nossas cantigas à desgarrada populares com a particularidade destas serem ditas em quadras ou trovas, e cada cantador retoma a ideia da quadra anterior, e humoriza ou satiriza sobre ela; é a chamada poesia mais ou menos repentina ao despique; e a audiência ri-se com os gracejos brejeiros dos protagonistas versejadores sempre acompanhados preponderantemente pelo harmónio, sobretudo quando há cavaquinhos à mistura. Esta poesia repentina é construída na base dum perfeito domínio da métrica e da rima, trabalhadas com mestria, o que torna a audiência alegre, às vezes esfusiante, aplaudindo ao fim de cada remoque. 

 

No caso em epígrafe, Eliane Triska, entrou (pois tive a oportunidade de o comprovar), e entra, salvo o erro, ainda actualmente nas cirandas. A distinção entre os intervenientes surge nas amostras editadas. Alguns manejam bem o tema (e não o mote), versificam bem o que é expresso, outros escrevem prosa com recorte curioso, estranho, às vezes sem nexo nem coerência, mas só para dar a impressão que é poesia  (mas não é senão prosa poética, alguma com má qualidade ) . A descrição na sucessão dos sintagmas são apresentados ao leitor/receptor com recortes estranhíssimos com a única intenção de apresentarem formato de versos; cortam discricionária e arbitrariamente a frase em curtos ou longos segmentos para impressionarem e iludirem quem lê ou os ouve, fingindo assim que eles obedecem a cadências  ou ritmos muito pessoais.

Alguns conseguem cadenciá-los outros ritmá-los, e ainda outros misturam cadências com ritmos (são particularmente estes que conseguem fazer poesia interessante, porém  se a escrevessem como quem escreve prosa, produziria  o mesmo efeito no leitor/receptor, excepto  os que conseguem dominar uma estética muito especial, ou seja essa a que chamaríamos de poesia muito amestrada) - a poesia magistral. Miguel Torga foi muito coerente em toda a sua obra ao poetar como fez. Eugénio de Andrade, idem. Todo o seu verso solto rimado escassamente na ocasião precisa e própria, obedece a cadências e ritmos muito trabalhados, e produzem o mesmo efeito que a poesia clássica destinada ao canto e ao acompanhamento por instrumentos musicais ( que são a razão essencial da existência da poesia, ao contrário da prosa). Por vezes, estes poetas, ditos livres, praticam o verso solto e nesta feitura revelada até ultrapassam o cânone tradicional, e criam um novo prazer de leitura ou audição. Mário Quintana poetou nos dois registos com sucesso, o que também fez Fernando Pessoa; e vejo-a ainda expandida em poetisas com boa qualidade estética na ciberliteratura actual, especialmente brasileira, em Lilian Maial, Liane Niremberg, Elane Tomich, a desaparecida Ana Merij (na prosa poética), a orgasmática e torrencial Arneyde Tomaschi, Denise Magalhães, Jacira, a falecida Margarida Reimão, Belvedere e Rosa Pena, a portuguesa Nina (Conceição de Castro) e tantas, e tantos outros que não menciono para não me alargar muito nesta limitada crónica (na advertência de que os  que menciono não estão pela sua ordem de grandeza).

 

Por outro lado, não há dúvida que existe ainda hoje o culto do soneto, e este tem sido alvo de polémicas acesas na Internet, em grupos e em fóruns, especialmente se nesse formato a mensagem é um aglomerado de signos que já não dizem nada ou pouco significam. A maior parte desses sonetistas  aproveitam a imagística da época Renascentista europeia: trabalham a mesma construção frásica, as mesmas figuras de estilo, numa imitação próxima do que já foi dito há quinhentos anos, na verdade respeitando os mesmos quiasmas, os oxímoros, a linguagem aproximada com figuras de estilo que foram regra. Ao lê-los, até parece que regressamos ao passado . Destarte há que saber ler um soneto e perguntar-lhe se traz alguma novidade para o mundo ficar deslumbrado, se os significantes são frescos e despertam ou não encanto, se seduzem pela criatividade, ou se são ou não desenxabidos e mortiços.

 

Por falar em todas estas coisas, há pouco troquei umas impressões privadas com Eliane Triska, e esse diálogo motivou-me a escrever o presente texto. Quem me falou dela foi um amigo que era incomum e agora é comum, e fui ler a sua poesia que para mim foi uma surpresa; ela domina o verso, tende a apresentar um conteúdo novo na formatação clássica, e por isso destaco-a pessoalmente da maioria dos nossos versificadores e prosadores poéticos, e dos que não são nem uma coisa nem outra.

 

Eu não sou poeta, nem quero ser; sou paisagista, com amor à minha profissão, que não troco por nenhuma outra, mas gosto de poesia, adoro poesia e gostaria de ser poeta. Só que não consigo dominar toda a sua técnica necessária (condição «sine qua non»), pois não aprofundei estudos universitários nem me fiz autodidacta nesta área,  dado que é ponto assente: ou se é ou não poeta, não esquecendo que são precisos outros atributos, outros dons, outra idiossincrasia, onde eu caberia à vontade. Também não gostaria de ser um poeta naïf, este que impressiona mas não perdura, causa apenas espanto ao espírito burguês, e serve especialmente para "épater le bourgeois", como dizem os franceses .  É bonita sim, mas não vai além disso, não traz nada de novo, não fundamenta a perenidade de coisa nenhuma, nem inspira nenhuma escola que a siga. Assim, e nesta sequência de ideias prefiro ser um poeta passivo, que é tão poeta como o que é poeta, mas um esteta que não escreve - um poeta cru, em estado bruto, porém, ao lê-la nos bons poetas isso me basta, preenche-me. Quando pouco ou muito, vou encontrá-la soberbamente na paisagem e no ambiente que nos rodeia e extasia, excepto quando chove a rodos. Sinto enorme prazer em ouvir os sussurros deslizantes dos regatos nos vales, a música produzida pelo vento nas florestas e nas searas, o assobio estridente que ele faz nas serranias, nas casinhas das altas serranias das nossas raias, e muito especialmente junto ao mar, numa falésia escarpada, ouço então o seu frenesim medonho, um choro de mil virgens a serem desfloradas, os trinos dos pássaros, canções naturais autênticas duma alegria imensa que deslumbra e extasia quem os ouve com a alma e o coração abertos ao envolvimento exterior. Também e sobretudo, encontro poesia nos seres humanos, na sua expressão alegre, efusiva, simpática, solidária, na expressão do olhar que delas emana a traduzir a felicidade de estarmos em convívio (este milagre da vida), a poesia da doação e da dação, da amizade, do gesto ternurento, da fragrância do interior dum corpo, que, quando age se lhe vê o seu imo, seja o seu belo e bom coração.

 

E é por isso que foi dito que prefiro olhar e ouvir a poesia do mundo envolvente, e não tentar traduzir ou reproduzir coisa alguma, porque o olhar e o sentir bastam--me. Seria muito doloroso querer interpretar, codificar, traduzir ou reproduzir a beleza e a bondade por palavras que dizem pouco, que se gastam indefinida e infinitamente por tanto se vulgarizar e abusar delas.

 

E finalmente  como estou ainda num estado semiesco, a minha existência remonta ao Australopithecus, 3,9 milhões de anos antes de Cristo, e também como não sei escrever com o primor dos grandes poetas e escritores, limito-me ao que me caracteriza e individualiza: tenho um olfacto, um paladar, uma visão, um tacto ainda muito primitivos, e acho que sinto muito intensa e fortemente as fragrâncias do que observo; por causa disso sou mais propenso a escrever rudimentarmente umas coisas muito leves e sinceras, ingénuas mesmo ,  que dão conta duma particular curiosidade indígena intraterrestre pelo mundo circundante, e, ora, neste sentido uma crónica serve muito bem este propósito de pôr a alma ao léu.

 

Um dia destes hei-de vos falar da descoberta que fiz para me sentir ainda o primata que sou, o símio que viveu num clã devidamente especificado na parte mais ocidental da Europa, com a identidade que é esta que tenho hoje, um rodrigo, pai de muitos rodrigues que se multiplicaram até ao tempo actual. Contudo, para acreditarem em  mim, têm de crer na reencarnação antecessiva. Sem acreditar nesta ciência paranormal, jamais qualquer um dos meus queridos leitores levará a sério o que digo, e ler-me-á certamente como alguém que se entretém a ver um filme com extraterrestres, ou a ler os livros de J. K. Rowling, a criadora das aventuras de  Harry Potter, best-sellers dos últimos anos (*),  esses livros e filmes que atraíram milhões de jovens em todo o mundo, ou nesses regressos ao futuro dum outro filme « Back to the Future »,  dirigido por Robert Zemeckis (**), baseado nas teorias de Einstein, que na minha perspectiva são iguais aos regressos ao passado da série dos invencíveis.

 

  ( E com esta me despeço até 3.ª feira como já foi justificado ao público por emails – no período entre 13 e 23 de Maio encontro-me em viagem, por isso não editarei nada), mas logo que regresse ao presente, terão novidades fresquinhas. Prometo.)

 

(*) Nota: entretenha-se agora se puder e quiser com a memória de Harry Potter:

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 (**)

Saiba mais sobre o «Regresso ao futuro»

http://pt.wikipedia.org/wiki/Back_to_the_Future

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publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 07:56
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3 comentários:
De Rachel a 10 de Maio de 2010 às 21:14
Meu amado gosto do que leio aqui . Estes poetas realmente são consagração do dia a dia e nunca morre suas palavras ,mais vivem e nos traz harmonia a alma...
Seja bem vindo a meu cantinho...Abraços
De Eliane Triska a 18 de Fevereiro de 2011 às 23:48
Salve, amigo Armando. Por aqui, em visita, fiquei feliz ao ver-me na companhia das tuas letras. Bjs Eliane
De cronicas-de-rodrigo-da-silva a 11 de Maio de 2011 às 13:07
Obrigado, Eliane, pelo aceno. Fiquei feliz também pelo reconhecimento. Beijinho agapiano para a PoetAmiga,

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