Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

FUTEBOL NUMA CRÓNICA CRÍTICA

FUTEBOL NUMA CRÓNICA CRÍTICA

por Rodrigo da Silva

Não me ouvireis nunca a falar de futebol, a não ser de coisitas sem valor para acompanhar uma conversa informal e, ou esporádica com algum desconhecido, ou meio-conhecido, numa atitude de simpatia, mas certamente sem nenhum entusiasmo. Ainda que goste de ver, especialmente no conforto dum sofá, um ou outro jogo internacional, jamais me darei ao trabalho de escrever uma letra para gabar seja quem, ou seja que clube forem. Gosto de bom futebol, mas abomino o enfoque geral que as massas populares proporcionam ao seu clube de eleição.

Efectivamente, este desporto é belo como qualquer outro de que pouco e mal se fala. Todas as modalidades desportivas são lindas, belas, escultóricas, teatrais, espectaculares. Excepto, a meu ver, o boxe e a tauromaquia.

Detesto, aliás, tanto encarniçamento, tanto entusiasmo, tanta alienação gerada em torno dum clube de futebol e dos seus craques, desde o jogador ao administrador. Repugna-me tanta conversa fiada acerca de uma derrota ou de uma vitória, de um jogador ou de um treinador. Na verdade, o cidadão ocidental, numa boa porção, não fala de outra coisa desde segunda a domingo, todas as semanas  (e este fenómeno tende a expandir-se pelos Médio-Oriente e Oriente). Arranja argumentos, arreiga opiniões formadas e firmadas, ama e odeia os adversários, tais beligerantes. Alguns dos jogos são de uma tecnicidade tal, que o espectáculo torna-se uma seca, uma sensaboria. Realmente, o melhor futebol que tenho visto, é praticado no Brasil, na Argentina, Venezuela e Uruguai, exactamente por dar oportunidade a que o espectáculo seja executado por artistas no domínio da bola, com dribles espantosos e remates fulminantes, usufruindo da liberdade de exibir um malabarismo incrível no desempenho de uma jogada individual. O tecnicista sensaborão é esse dos passes com tabela, desmarca-te para te dar a bola, em que o jogo passa a ser um espectáculo dum conjunto a dois ou três ou quatro ou mais jogadores, em perfeita sintonia técnica. Para mim, o espectáculo entusiasmante é outro, é o jogo de uma equipa dotada por génios individuais, onde um ou mais jogadores fazem golos mediante incursões individuais; ele infiltra-se espantosamente até ao remate final bem sucedido. Este, em que o jogador - protagonista mostra a sua classe superior no domínio da bola e do lance. Nesses em que predomina o tecnicismo pode também haver arte que se veja, mas não é o que acontece maioritariamente.

Apesar do que digo neste âmbito futebolístico, para mim este desporto é posto em planos inferiores nas escolhas que faço dos meus prazeres favoritos sem os quais não seria mais feliz.Assim, uma boa música arrebata-me os sentidos, um bom poema maravilha-me, um conto bem escrito e imaginado extasia-me e colora o dia percorrido; uma conversa inteligente, um aceno de amizade, ou de amor, preenche qualquer vazio que me possa afectar em qualquer momento imprevisto; tira-me da solidão, e é, por isso, que nunca estou sozinho, mesmo só. Mesmo só, estou sempre acompanhado, basta-me um livro. Uma crítica inteligente vale todo o ouro deste mundo. Um acto de amor leva-me ao paraíso, assim como quem comigo o desempenha (espero eu).

Consequentemente, não dou o valor que a maior parte dá ao desporto-rei.

E considero até que falar dele é uma alienação e, ou alheamento das realidades que condicionam a nossa humanidade. É uma fuga às nossas responsabilidades pelos outros, uma fuga insensível às dificuldades dos nossos companheiros que enfrentam connosco esta peregrinação terrena. Ao nosso lado, à nossa volta, à nossa vista. É como ter olhos que não vêem. É a cegueira imperceptível, inconsciente. A desumanização.

Há causas que todos devíamos abraçar, e que a quase todos passam ao longe, à distância de milhas incontáveis, paradoxalmente imperceptíveis. Todo este comportamento humano é insano, irresponsável, abominável, e perdura desde a minha época semiesca. Continuamos efectivamente primatas.

Com efeito, uma sociedade, uma comunidade, um povo que admitem a corrupção e a demagogia (a arte de enganar o povo) num Estado, seja ele qual for, por mais atrasado que seja, é a pior coisa que nos pode acontecer na luta diária, e na sobrevivência dos mais desvalidos. Permitir o enriquecimento à custa da massa popular que se esforça pelo trabalho diariamente com o propósito de conseguir alguma dignidade para a sua condição social, é uma barbaridade que nos envergonha a todos, concidadãos deste planeta. Privilegiar os endinheirados, e proteger o interesse dos poderosos por artes habilidosas, que não são mais do que a exploração dos humildes, dos ingénuos, dos fracos, dos desprotegidos, é uma vergonha do nosso tempo.

Confesso-vos: fui fã de grandes homens e mulheres que lutaram pela igualdade, pela fraternidade, pela solidariedade, e de um deles falar-vos-ei na próxima crónica, um dos melhores filósofos do recente século transacto: Bertrand Russell. Ele morreu mas não está morto. E é bem preciso falar dos que são imprescindíveis ainda hoje, e especialmente nos dias difíceis que vamos atravessar.

Este Homem, matemático, filósofo e político, nunca deu um pontapé numa bola, e muito menos na canela dum ser vivo. Convém recordá-lo especialmente nos dias de hoje. E que me desculpem tantos outros que lutaram por grandes causas a favor da Humanidade , os que já morreram mas estão ainda vivos connosco, por não poder falar de todos eles numa só crónica. Que é limitada obviamente quanto pode e deve ser.

24/05/2010

 

sinto-me:
música: Antena 2
publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 22:26
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