Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

JOAN MARGARIT, poeta catalão

 JOAN MARGARIT, poeta catalão
por Rodrigo da Silva
 
Ouvir um poeta ou ler os seus versos é sempre um acto de amor e deslumbre ( e pode até ser um acto de iniciação a um novo discurso). E o gosto pode alterar-se no decurso da debutância. Seja o poeta a que me vou referir, seja outro que viva noutro mundo que não este. Assim acontece também com os escritores mais apreciados. Vivem as suas experiências, os seus sucessos e insucessos, e revelam, com mais visível ou invisível percepção,  o prisma pelo qual interpretam os factos, causas e efeitos, e mesmo que não estejamos completamente em sintonia, o seu ideário ilumina caminhos conhecidos, rumos porfiados, outros ainda desconhecidos, mas que nos enriquecem a compreensão abrangente da vida e da nossa condição terrestre. Uns agarram com filtragem pessoal os absurdos e as incoerências, jogam com imagens criadas que visionam, e transmitem-nas numa linguagem original. São génios. Outros ainda fragmentam continentes para que o mundo deixe de ser presente epasse a ser futuro na alegoria da perfeição. No topo estão os que criam a alegoria sinfónica mais deslumbrante, aquela que perdura no tempo por séculos e milénios. Em todos nota-se cada vez mais a expressão da novidade, da originalidade. A Arte literária não é mais a evidência duma técnica amestrada, porém muito mais do que isso, é um conjunto de signos de textos, de composições e obras que estão cheias de maravilha, uma visão sedutiva aos níveis da intra e da intertextualidade, que, na exegese, formam um conjunto duma proposta artística posta simplesmente ao ouvinte/leitor, melhor receptor. Efectivamente qualquer obra dum artista pode ser apreciada completamente quando se lê na sua totalidade; do seu início até maturidade final. Se assim não for, é óbvio que quem a ela se refere, valoriza apenas parte dela, sem pôr em evidência o percurso que a define e lhe dá toda a sua dimensão.

 
Acerca da velhice, Joan Margarit diz que gosta que lhe chamem velho, homem na casa dos sessenta e tantos, porque acha-se saudável, o que significa que não lhe pesa esta consideração. Nem se importa com esta tentativa de vexação. Nada melhor que se sentir jovem de espírito, embora admita também que felizmente (e esta também é uma vantagem considerável) não precisa de travar mais e melhores batalhas pelo futuro. O futuro encurta a cada dia que passa, e o prazer de viver o presente aumenta consideravelmente, tornando-o pleno. E este facto dá-lhe uma paz de espírito surpreendente, pois que na sequência desta realidade limita-se a viver o dia-a-dia, um de cada vez sem pressa, numa espécie de nirvana, ou na certeza de que cada dia é para ser vivido como se não houvesse mais amanhã, sendo esta a verdadeira meta da filosofia dos epicuristas, que em Horácio foi definido como o «carpe diem». Conceito famoso, consequentemente, gozado na parte final da vida, antes da decrepitude.
  
Sofredor, enquanto jovem numa luta que utopizava uma democracia cultural, a qual por fatalidade não se implanta, mesmo quando os pressupostos estariam garantidos por um regime democrático, limita-se a ver nele uma dificuladde incrível para que aconteça realmente. A democracia não traz a cultura para o meio das massas populares. Traz-lhe o pão, algum conforto e entretenimento (no futebol), mas a cultura fica-lhes negada. Depois de satisfeitas as condições minimamente dignas da existência, o cidadão pouco liga ao seu estado cultural, e apenas aproveita a condição do novo estado para ver e discutir futebol (no mundo ocidental, incluindo agora progressivamente o Médio Oriente, propagando-se já lentamente pela Ásia) e entreter-se com outras vulgaridades.
                
O que o poeta Joan Magarit nos pretendeu transmitir, a certo momento, na entrevista da RTP 2 (*), foi a distinção pessoal entre Poesia literária e a Poesia-Poesia. A Literária deste modo mantida já há mil anos, no Ocidente, a segunda como conceito pretensamente actual. E esta não é mais do que a estesia onde se move um autor que a depura em sínteses imagísticas e escolhe a frase despoletada para transmitir a emoção partilhada. Conhecer o leitor para o consolar, consolando-se, e não entreter, que serve para muito pouco. Mas para lhe causar consolo, saber estar no lugar do leitor no momento da criação para que não se torne repulsivo na expressão, precisa de ser exacta (rejeitando o mau gosto e o disparate). Verdade, o que mais impressiona é a sua forte convicção  (sentida) plena que é um escolhido  pelo dote de ter nascido poeta. Os grandes poetas nunca assim se afirmaram (ainda que o soubessem). Fernando Pessoa (um dos criticados em destaque na entrevista) sabia muito bem no íntimo que era um dos maiores poetas da nossa Literatura, mas duvidava que algum dia lhe dessem o verdadeiro valor e morreu na obscuridade, apenas conhecido e admirado por um grupo muito restrito o qual lhe amparou a memória e o génio - só garantido «post mortem».
  
Poesia como refúgio, assim disse o poeta Margarit. Pode até ser refúgio; realmente, num mundo hostil, a beleza é um refúgio. Mas, na solidão do recolhimento. Sobre a Arte como evasão, já escreveram grandes literatos e poetas e músicos: Wagner, Sommerset, Wilde. Poesia à partida partilhada, sim, senhor. Refúgio ou evasão. Refúgio ou conforto. Quiçá alheamento. Lembro-me agora de algumas poesias de autores sagrados e consagrados.
  
 Estou a recordar-me, por exemplo, de uma das poesias mais populares da Literatura Portuguesa: "A Balada de Neve", de Augusto Gil.
  
Todo o conjunto de metáforas que constituem a alegoria estética, normalmente sendo o seu título, não se inscreve na escrita sentimental nem emocional. É a pura figuração de um fenómeno atmosférico ambiental, a neve deu origem a uma balada (com sentido musical). Não deixou de ser uma poesia adoptada, sentida, admirada, divulgada pelos portugueses de geração em geração. Assim foi a «Nau Catrineta» que narra uma estória inventada (toda ela um sinfonia de imagens da gesta portuguesa).
Enquadram-se estas manifestações estéticas na Literatura e não na Poesia, como diz Margarit?
  
Escrever sobre a sua experiência é um dos meios da cativar o receptor, mas também a verosímil, já que se confunde com a realidade. E esta reflexão remete-nos para o início deste articulado - poesia que finge a dor que deveras o poeta sentia. Fingir a realidade vivida é expressar a dor com os meios que temos ao dispor do discurso, numa distância necessária e adequada. Margarit não é assim melhor que Pessoa, como quer dar a entender. Poderá no limite do tolerável ser igual - uma outra face da mesma moeda, mas sempre no limite do possível, e pode igualá-lo na intensidade da expressão do que pretende transmitir, mas nunca o supera. Não esqueçamos que a música é  arte pura e ela existe na abstracção. Não é dita por palavras que comovem, emocionam, alegram, entristecem. Contudo, quem ouve uma partitura musical , também sente tudo o que o compositor transmite por notas e acordes, topo onde só raras sensibilidades conseguem descodificar racionalmente.
 
O poeta fala do rio com o seu deslizar no leito e dos sons que ouve e nós idealizamos e ouvimos essas lamúrias ou solavancos da água no seu trajecto descendente. Beethoven, no entanto, sonoriza o rio numa pauta inerte, nós vemo-lo e ouvimo-lo (a pastoral). É pela audição e pelo intelecto que o compositor nos faz reviver a vida ambiental existente na floresta, pela abstracção intelectualizada, a memória revivida, igual à palavra do poeta. A arte da Poesia pode estar na escolha da metáfora que cria a alegoria. A construção da frase que nos leva à recriação da realidade (mais colorida, mais olfatizada, mais audível, mais palpável, mais gustativa do que a real (considerando-a imprecisa).
 
São palavras carregados de plurissignificações, a redução às essência ou fragrância, no fundo é o regresso à sobriedade romana medieval. A Beleza da simplicidade. Ainda há-de aparecer um poeta que em dois versos sintetize a cultura do mundo inteiro, em vez de um hai-cai oriental. E bastar-lhe-á um dístico para se imortalizar.
 
Se não fosse a Arte , a vida na terra seria penosa, é a Beleza que nos faz vencer as agruras, os tormentos, a amargura da existência: mas neste momento é inevitável perguntar:
E porque não a literária? Poesia vivida, outrossim, todavia a intelectualizada também pode ser, sem necessidade de defendermos modas e modismos.
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(*)Se não abrir vá à RTP2 Canal 2 programa «Bairro Alto» de  2010-01-12
clique abaixo:
http://tv1.rtp.pt/multimedia/progVideo.php?tvprog=24878&idpod=34224
.Se quiser conhecer a sua poesia, busque em:
http://www.google.com/search?q=Joan+Margarit&sourceid=ie7&rls=com.microsoft:en-US&ie=utf8&oe=utf8
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publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 20:18
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