Domingo, 26 de Setembro de 2010

ENTRE AS NUVENS DE LONDRES

ENTRE AS NUVENS DE LONDRES

por Rodrigo da Silva

 

Entre as nuvens de Londres está a estátua monumental do Almirante Nelson, a quase cinquenta metros de altura, perto do céu na áurea nebulosa tão angelical quanto sinistra também, que diferencia o espírito inglês. A estátua mais alta dos céus de Inglaterra que distingue os ingleses, como povo lutador, prático e pragmático. Ela é a de um almirante que arrasou outros povos e zonas costeiras desde as Caraíbas ao mar Mediterrâneo. Arrasou e saqueou. Começou a ser uma prática da época que a Grande-Bretanha iniciou, hoje muito contundente e censurável. Cádiz testemunhou uma das batalhas mais heróicas deste comandante (e nela ele foi mortalmente ferido), ao derrotar a Armada franco-espanhola, uma mistura de naus-de-guerra francesas e espanholas que Napoleão conseguira agrupar, 33 naves aliadas, contra 27 inglesas. Estávamos em 1805, e foi esta batalha, chamada de Trafalgar, que deu origem a esta praça enorme no centro de Londres, onde se lhe erigiu uma estátua altíssima perdida entre ‘as brumas da memória’.

 

A Inglaterra foi considerada por mérito próprio, a rainha dos mares durante mais de quatro séculos mais ou menos. E, de facto, manteve a supremacia do poder marítimo até ao advento inconfundivelmente poderoso dos EUA. Séculos antes, noutra batalha, em 1588, evidenciou-se também o pirata Francis Drake, explorador, comerciante de escravos, político e vice-almirante da Marinha Real Britânica. Nesse ano, liderou como Capitão de Mar-e-Guerra a Armada Inglesa na defesa ao ataque da Armada Invencível de Filipe II, batalha feroz em que à sua conta afundou vinte e três navios, batalha esta aliás onde quase ia perdendo a vida. Foi o começo da soberania inglesa e da traficância de especiarias nos oceanos. E diga-se de livre curso: este pirata-capitão foi por alguns historiadores considerado filho bastardo de Isabel I de Inglaterra, a sua protectora. A sua estátua encontra-se em Plymouth.

 

Ora bem, depois desta introdução, que parece inócua e descontextualizada, até parece que dirá pouco do que é o espírito inglês, todavia verão os leitores, que sim, que não é vã, por aquisto que desenvolverei a seguir, de sequência em sequência.

 

Esta foi a minha quinta viagem de visita a Londres; um fim de verão, deste estio de 2010, aí um pouco nebuloso, com manchas de lã sedosa a pairar no horizonte claro, uma pinguitas de chuva num dia para não destoar, mas com intermitente entrada alegre do sol de quando em quando. Viagem feita agora com um intervalo de quarenta e cinco anos. Na realidade, a cidade pareceu-me igual, mas também diferente (a teoria quântica serve-lhe à medida relativa). Igual em muitas coisas: ruas, árvores, monumentos, tráfego, meteorologia, relacionamento humano e o rio Tamisa; diferente no frenesim mais intenso, comportamental, que anteriormente pouco existia, diferente nos aglomerados de pessoas de todas as cores e feitios por todo o lado, diferente nos locais tradicionais de encontro marcado entre turistas. Piccadilly Circus com a estátua de Eros estava a abarrotar de gente. Trafalgar, idem. Oxford Street um arraial de seres vivos muito juntos com passos apressados. A China Town está pleno de folclore oriental, sempre em festa. O Soho à noite a transbordar de concupiscência e erotismo. Ela, muito descascada e descarada com minisaia para se ver toda a coxa, decote generoso com um copo de vinho à sua frente no bar ainda pouco frequentado (a noite ainda era uma criança!), eles aglomerando-se todos juntos e colando-se num bar a abarrotar só de homens, trintões, quarentões, à volta disso ou com essa do sorriso maroto. Noutra esquina as prostitutas mais bem despidas do que vestimentadas, quase de curta tanga a cobrir roliças colunas, e uma tira de cetim a cobrir mamas fartas, chupando cigarro após cigarro em poses provocadoras, cifradas em pequenos grupos ou duas a duas. Como os passeios estão apinhados, aparecem de vez em quando umas aves raras vestidas com rigores que a minha cabeça não consegue decifrar. Nem sei se vão para a Ópera, se para o Cinema, se para uma festa particular, se para os raios que as possam esfarelar, mas vão todas decididas sem olhar para os lados. Levam um fito determinado. A vida exterior parece o agitado círculo envolvente duma colmeia, ou a periferia dum formigueiro no extremo da sua azáfama. Carros para lá, carros para cá. Muitos. Táxis mais bonitos, mais modernos, com um design agora mais atractivo. Todavia, continuam pretos com listas coloridas para se distinguirem dos normais não especificados, mas nem precisariam das listas para se diferenciarem, pois o formato é único. Mais moderno e harmonioso. Há pessoas a acotovelarem-se nos passeios, em gincanas de corpos humanos. O metropolitano «UNDERGROUND»  anda bem cheio porém ainda há a cortesia de alguém oferecer o lugar sentado aos idosos. Nem todos o fazem mas ainda há pessoas bem-educadas. É esta uma nota muito positiva a destacar. Se alguém se magoa há uma multidão de gente a querer ajudá-la, vem a polícia, acorre uma ambulância itinerante que logo presta os primeiros socorros, às vezes definitivos, com desvelo e atenção.

 

Contudo, revelou-se-me um aspecto curioso e sintomático do que é o espírito inglês ao fotografar a estátua do Almirante Nelson. Efectivamente, é, até pela sua altura (quase cinquenta metros, como já disse), o herói mais destacado de Londres, e quem diz Londres diz também Reino Unido. Na verdade, o almirante, que também foi corsário, mal se vê cá de baixo, pairando lá por cima entre as nuvens que acinzentam normalmente a cidade. É uma áurea que envolve a capital e abrange toda a Ilha anglicana, o espírito do homem deificado, esse que mais pertencente ao Reino celeste do que ao Reino territorial, unido como não podia deixar de ser.

 

E aí estamos, em Trafalgar Square, onde se efectuam as festividades cíclicas de patriotismo e nacionalismo. Anuais, plurianuais, ou sempre que haja necessidade de reunir os patriotas em torno duma iniciativa política com especial importância para todo o Reino. Aos seus pés os leões domesticados que aparentam pela posição aninhada em que os esculpiram, cães ou gatos. São leões domesticados à pedrada, ou seja, em pedra aninhados, onde os turistas se encavalitam para o álbum fotográfico das memoráveis visitas ao estrangeiro para amigo ver ou familiar observar, embasbacado. Nem ninguém, dos que por aí andam cirandando, liga uma pevide ao corsário-almirante (que de batalha em batalha foi sendo estropiado: zarolho, maneta, achacado pela malária, curando de vez em vez as febres tormentosas, e finalmente baleado na coluna vertebral), o líder militar dos mares atlânticos, pacíficos e mediterrâneos, que recebeu uma das mais altas condecorações  pelos seus feitos heróicos em prol do Reino: cavaleiro da Ordem do Banho.

 

Mas, voltemos um pouco ao acontecido com o pirata Drake, o capitão de mar-e-guerra que saqueou as costas das Caraíbas, também as pacíficas e mediterrânicas, e a quem os ingleses apelidaram de corsário - um eufemismo muito ‘soft’ para um depredador de navios mercantes das rotas da Índia, que Vasco da Gama havia firmado na aventura da descoberta ou achamento do novo mundo, e Álvares Cabral solidificou na viagem que achou um pouco ao acaso (uma vez que a sua intenção era balizar uma rota no sentido inverso à de Vasco da Gama), o Brasil. Pois, foi este (Francis Drake) um imitador do turco Dragut, do ano de 1550, o temível pirata também que devastou e pilhou populações no mar Mediterrâneo, e onde chegava corria todos a ferro e fogo. Lembrem-se de Cullera e a pilhagem aí acontecida com a fuga desordenada dos gentios espanhóis (1). Drake, repito por uma questão de relevo, era um oficial da marinha inglesa que a Rainha Isabel ou Elisabete ou Elisabeth I sempre protegeu até nomeá-lo vice-almirante da Armada que venceu Filipe II, sagrando a sua Pátria com o selo de líder dos mares do Sul, e consolidando o maior Império sobre a Terra de que há memória. Foi assim esta Pátria consolidada na exploração dos mares, que outros haviam descoberto, com realce para Portugal, até à primeira grande guerra. E este espírito manteve-se até hoje, ainda que os EUA lhe tenham tomado a dianteira depois da derrota militar e queda do reinado do Kaiser Guilherme II - 1914/1918 - ver crónica anterior.

 

Esta Inglaterra com uma mistura de três povos, unidos por uma aliança com as suas vicissitudes vividas entre guerras e acordos, unidos especialmente por casas reais que se cruzaram no percurso duma nacionalidade com altos e baixos, mas continuando uma saga de exploração comercial sem paralelo na história das Pátrias espalhadas por este Mundo.

Quando o Reino Unido rejeitou a moeda única, com o pretexto da libra valer mais do que o €uro, não fez mais do que tentar manter a sua hegemonia financeira entre os povos da Europa. A Alemanha e a França foram muito mais realistas e solidárias. A Escandinávia também se alheou.

 

Na verdade, hoje, quem lá vai terá de cambiar a moeda, o que dá um lucro extraordinário à economia e finança inglesas. Efectivamente, cobram exorbitantes comissões e outras taxas que espoliam o estrangeiro - a esse que leva os tostões contados, o que é mais uma fonte de lucro que nada tem com a solidariedade e a fraternidade entre povos da União Europeia. É o espírito inglês a ser exaltado na prática duma pirataria antiga, coberta pela sua soberania milenar, ainda imperiosa. Pela sua ânsia de exploração e especulação, pelo sentido duma escravatura que eles iniciaram em todo o mundo, e outros povos seguidamente lhe cobriram as pisadas, pelo seu sentido prático de vida que eles reforçam ao afirmar que «Time is Money», por um pragmatismo avançado que não olham bem aos meios para atingirem os seus fins. A sua descolonização, até essa foi exemplar: saíram dos territórios subjugados mas continuaram a manter-se neles, explorando-os com interesses mútuos, aproximando as castas mais elevadas desses povos da sua realeza. Nesse aspecto, Portugal perdeu muito por não aproveitar a experiência da sua descolonização, ainda que procure agora recuperar a má experiência obtida, três décadas perdidas para todos, e que não serviu nem colonizados nem colonizador.

 

25 de Setembro de 2010

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Abra, por curiosidade,  e no sentido de se instruir, os links abaixo transcritos

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Almirante_Nelson#In.C3.ADcio_da_carreira_naval

http://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_I_de_Inglaterra

http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Drake

 

(1)   Leia o que escrevi acerca do pirata turco Dragut (1550, d.C.) em Blocos-on-Line:

 

http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=cron/cv/cv03/cv031115a.htm&tipo=prosa

 

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sinto-me: Cansado com a viagem
música: ANTENA II
publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 09:11
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