Domingo, 10 de Outubro de 2010

COMO NÃO SOU POETA

COMO NÃO SOU POETA

 por Rodrigo da Silva

 

Hoje vou dar-me ao prazer de fazer uma viagem pela Net, de percorrer alguns dos seus labirintos, tentando sair deles pelos instinto e alento de inspiração-expiração, ocasionais e momentâneas.

 

Como não sou poeta, mas não me importando nada se contasse entre os demais, gostaria de nessa actividade misturar a poesia de cordel ou popular, que pode ser muito bela, com a erudita, fosse ela a mais refinada, sendo esta apenas a que recomendo às almas mais exigentes sem que a primeira ficasse por esta avaliação, desmerecida ou menosprezada.

 

Assim, sendo única e simplesmente aqui um modesto cronista, sem nenhuma aspiração a ser dos melhores, nem dos mais lidos, vou alinhavando as ideias que me surgem, ocasionais, esperando alguma leitura atenta pela curiosidade que possa causar a alguns leitores que se mantêm fiéis (especialmente ao meu altérnimo Daniel Cristal), e o têm mimado com comentários imerecidos, exagerados porventura, mas nos quais noto uma sinceridade que às vezes me surpreende, e bastam esses poucos para me manter vivo e activo nestas lides literárias, contudo com uma particularidade muito preciosa: é que eles são de literatos inconfundíveis e incontornáveis neste espaço virtual. São os melhores, a nata que por cá nos acompanha e que nos honra e dignifica pela sua presença periódica. Sempre deslumbrantes, sempre magnânimos, sempre companheiros e amigos nesta peregrinação fugaz por este vale de encantos e ternuras. De facto, por vezes, um vale com poucas lágrimas, e quando existem, superadas e sublimadas, alguns deles reconhecidos intercontinentalmente no mundo lusófono, especialmente brasileiro, como não poderia deixar de acontecer. E contrariam deste modo, e felizmente, muita da filosofia conservadora ou tradicional que outrora nos quiseram incutir ou inculcar com uma grande dose de partilhada ingenuidade institucionalizada, hodiernamente quase residual. A estrutura mental que é suportada pelo córtex vai progressivamente melhorando para bem de todos nós.

 

Da poesia erudita disse uma vez, pela voz do meu altérnimo Daniel Cristal, que ela deve ser lida  como quem ouve uma sinfonia. E isso quer dizer que a sua leitura uma vez não chega, duas vezes é pouco, três não é de mais, ou seja nunca é de mais. Especialmente aquela que nos toca o coração, ou melhor dizendo todas as fímbrias do nosso ser e estar neste mundo com o corpo e espírito que a Natureza nos dotou. Ouvir uma sinfonia, presenciar uma ópera, um ballet, uma peça de teatro, e viver toda essa abstracção que nós concretizamos no nosso interior, são coisas muito preciosas. Apaziguam-nos, retemperam-nos, transformam-nos. Realmente, transportam-nos para um mundo ideal que nos delicia, contrariando deste modo, a sensaboria do quotidiano com a sua dureza e mal-estar numa competição desenfreada, apressada, acotovelada, ou, em suma, deprimente especialmente para quem não a consegue acompanhar; porém, não deveria ser tão depressora quanto isso porque os que andam nas disputas próprias de quem se quer superiorizar, boa parte das vezes quebram pela espinha, acumulando doenças neurológicas, psico-corporais resultantes dessa sua correria, muitas delas consequentes, inevitáveis, as hipertensões, os enfartes, mortes prematuras, solidões incomensuráveis, medos e pesadelos. E é caso para dizer, porque ao correr das teclas: ó neurocientista António Damásio, dá cá uma ajuda, porque serias bem-vindo!

 

O mesmo acontece com a escultura, a pintura, o desenho, o bom cinema. Não é possível ver um quadro pictórico uma só vez, muito menos uma escultura; um desenho guarda-se numa estante, um bom filme é para se repetir vezes sem conta, ou mantê-lo na nossa cinemateca particular, pronto a ser utilizado quando vezes nos apetecer. Um bom livro guarda-se para sempre e relê-se de tempos a tempos para descobrir novos pormenores significativos. È sempre um tempo de novas descobertas e encantos.

 

Acrescento a propósito um episódio com especial significado: Nunca me esqueci do que o escultor José Rodrigues me disse um dia em que estava acompanhado pelo seu irmão António Jacinto Rodrigues, dia esse em que visitávamos uma exposição dele em Reguengos de Monsarraz em 1994: «Estas esculturas em miniatura são os meus sonetos»; e esta metáfora traduzia o que para ele é a Poesia, ou seja o valor e a importância que ele dá ao soneto clássico, românico, expressão máxima da estética literária acrónica. E logo pensei que as suas grandes esculturas são odes majestáticas, sem o dizer abertamente porque não haveria necessidade de. Deste encontro, tirei uma foto que está espalhada por aí na Internet, em fotos inseridas nas minhas páginas pessoais e murais, tais como essa na nota (1) do rodapé desta crónica.  

 

Para finalizar, o que afirmo não é produto da imaginação nem nenhum devaneio arbitrário à mercê da malquerenças que possam advir, mas uma realidade confirmada por muitos estetas no entanto não só literários, como também artísticos seja em que modalidade for. Enfim, não chega uma só leitura, como coloquei nesta crónica anacrónica: é preciso reler, perscrutar com olhos e a mente muito abertos, ouvir uma sinfonia composta de signos num ou vários sintagmas. Necessário é preparar a abertura à novidade que o contido no receptáculo nos propicia, descobri-la aos poucos para usufruir dela com a máxima intensidade emotiva, porque balança entre várias correntes literárias distintas, e estas extravasam a nossa cultura ocidental, na busca de uma síntese actual, original, transcorrido o percurso plurissemântico. Converter numa nova síntese filosófica a possível verdade universal num vaso admirável não é nenhum preconceito concepcional, mas outrossim e sobretudo mostrar ou demonstrar que a obra de arte pode dar outro esplendor às pontes estéticas civilizacionais no curso da História.

 

Aliás e ademais, o preconceito do mau leitor está na minha opinião, na sua desatenção, e é aí que reside precisamente o seu olhar vesgo para a forma estrutural sem atentar na multissignificância dos signos que compõem o intra e o intertexto duma obra poética. Quando uma comentadora e escritora brasileira Verluci Almeida disse que os sonetos de Daniel Cristal lhe faziam lembrar Luiz de Camões,  não lhe desagradou a expressão, segundo ele, porque esse 'lembrar' apontou para uma poesia toda feita duma mestria ímpar e invulgar; dizia-me uma Professora crítica das suas obras, Maria Fontes, e que o acompanha assiduamente há um par de anos, que nem o Nobel José Saramago nem o catedrático Carlos Reis alguma vez tinham escrito algo parecido com esta tese que alimenta desde há mais de uma década, pessoa esta entendida nestas matérias, e que conhece bem, desde que começou a lê-lo com mais curiosidade e atenção, e a criticá-lo com regularidade, as suas posições sobre Estética. De facto, verdade ou não o que ela disse, eis uma das variantes do ele que pensa esteticamente, e submeto-me em seu nome publicamente ao contraditório; se este aparecer será assunto para mais uma polémica que até poderá ser muito salutar, dependendo obviamente do tom e da argumentação em que se fundamentem.

10 de Outubro de 2010

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Nota (1)

http://www.facebook.com/armando.r.s.figueiredo?ref=profile#!/photo.php?fbid=103926836294056&set=a.103751829644890.7530.100000302214875

Nota 2 : conheça António Damásio, clique na ligação abaixo do motor da Google:

http://www.google.pt/#hl=pt-PT&source=hp&q=Ant%C3%B3nio+Dam%C3%A1sio&aq=f&aqi=g7&aql=&oq=&gs_rfai=&rlz=1R2ADFA_pt-PTPT394&fp=659ee33b1a6a498a

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sinto-me: bem, obrigado e recomendo-me
música: Antena 2
publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 18:19
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