Domingo, 9 de Janeiro de 2011

DE MARRAKECH REGRESSEI SEM EL REI

 

 

Pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc. (pintura a óleo atribuída a Cristóvão de Morais, patente no Museu Nacional de Arte Antiga).

 

 

REGRESSEI SEM EL REI DOM SEBASTIÃO

por Rodrigo da Silva

 

Quando El Rei Dom Sebastião, com vinte e quatro anos, neto do rei português Dom João III, 7.º rei da dinastia de Avis, descendente directo da ‘ínclita geração’, a qual Luiz de Camões enaltece n’Os Lusíadas, e a quem esta epopeia é dedicada pelo seu autor, decidiu ir em socorro e a pedido do Sultão Abu Abdallah Moahammed Saadi II, da dinastia Saadi (esta tese carece de fontes fidedignas), invadir Marrocos e derrotar assim como destronar o Sultão Mulei Moluco Abd Al-Malik, tio do Abu, também da dinastia Saadi, e resolveu seguir da costa em direcção a Fez, influenciado pelos seus conselheiros cortesãos, fê-lo, segundo críticos da nossa História por puro devaneio colectivo, falta de precaução, doutrinado por mestres consultores insuflados pelos feitos heróicos registados numa epopeia admirável que foi a nossa, à qual devemos acrescentar um domínio único global que ia do Norte de África e ilhas adjacentes até Timor e Macau, passando por toda a costa atlântica africana, incluída no rol a americana brasileira, e estendida às costas dos oceanos Pacífico e Índico. Esses factos experimentados na aventura foram estudados ao pormenor na Escola de Sagres, tendo como patrono Dom Henrique, não tendo por isso sido uma aventura inteiramente cega, feita ao acaso, mas com base sustentada, não só tecnológica como também científica. Pedro Nunes aperfeiçoou o sextante necessário à arte de bem navegar em rotas desconhecidas. O certo é que esta múltipla gesta oceânica abriu os horizontes da Europa a uma nova rota pela via marítima, culminada na busca do comércio de especiarias, ouro, escravos para as Ilhas e Américas, e outros produtos proveitosamente vendáveis com o sucesso reconhecido não só por nós, como também pelo mundo global (este global referido «avant la lettre»). Lisboa tornou-se no centro mercantil por excelência destes géneros alimentícios, condimentos raros na Europa (e que tão apetecidos eram dos gastrónomos continentais), um polo poliglota receptor de ouro e marfim, seda e especiarias do comércio ocidental, subalternizando a rota da seda que se fazia pelo Mar Mediterrâneo e Ásia Menor, e da qual usufruíam alguns Países, especialmente a Turquia, a Etiópia e a Itália.

 

Efectivamente, um jovem ainda imaturo, doutrinado pelo topo da hierarquia religiosa e imperial palaciana, tendo como base uma monarquia vivida numa corte de origem aristocrática, tal como era uso dessa época, à qual se juntavam os grão-mestres das Ordens Religiosas tradicionais, que anteriormente estavam experimentadas na Guerra Santa do tempo das Cruzadas, com destaque para os Templários ‘convertidos’ artificialmente nos cavaleiros da Ordem de Cristo, vestir as armaduras dos cavaleiros das cruzadas, a cota de malha, o elmo, o escudo, a espada e a lança, e infiltrar-se  nesse território arenoso e inóspito por onde se estende o deserto a perder de vista, e deparar com o Exército da Nação invadida à sua espera, bem entrincheirado nessa projectada rota para tomar Fez pela força das armas, foi esta sim uma aventura cega, digna das maiores utopias jamais imaginadas.

 

Vigiado desde o seu desembarque em Tanger pelos marroquinos, numa distância considerável calcorreada pela borda da costa litoral a pé e a cavalo, em vez de utilizar os oitocentos navios da viagem atlântica ancorados nessa cidade, em vez de recorrer a esses para (assim sim, e isso é que seria sensato), aportar em Larache, e, então, dirigir-se para o interior desértico até Alcácer-Quibir (no caminho de Fez), onde o inimigo montou guarda, foi um erro táctico de nefastas consequências para o reino lusitano. Aí chegado com um exército esfomeado, sedento, desidratado, extenuado pelo calor e pela fadiga pedestre do percurso, com 18.000 guerreiros, em boa parte mercenários, aventureiros, incluindo 2.000 voluntários de Castela, 3.000 mercenários da Alemanha e da Flandres, 600 italianos, alguns camponeses e um punhado de veteranos de outras guerras de África e do Oriente, contudo, preponderantemente, um exército mal treinado, mal organizado, pouco disciplinado, mal preparado para o efeito pretendido, inexperiente, pouco coeso e deficientemente comandado. Não consta verdadeiramente em parte nenhuma, que o exército do Sultão, que nos pediu auxílio contra o tio, tenha feito parte desta expedição, o que me leva a crer que o pretexto da invasão está mal explicado e fundamentado. E por isso é um pouco ilógico que os marroquinos tenham perpetuado esta história como a Batalha dos três Reis (talvez por terem perecido três Reis nessa batalha). O nosso exército foi cercado por outro exército disciplinado e aguerrido com 60.000 combatentes bem treinados e enérgicos; na verdade, a desproporção de forças era enorme, e a indispensável energia e o vigor para o combate estavam também muito desproporcionados a favor do sultão do território invadido; vencido El Rei, havendo muitos prisioneiros (que custaram fortunas no resgate pedido depois da derrota), morre ou desaparece Dom Sebastião na batalha, assim como morreu o vencedor Sultão Mulei Moluco  por razões mal identificadas, uma morte atribuída a qualquer maleita desconhecida, e de igual modo morreu ainda o Sultão, seu sobrinho, Abu Abdallah. o tal que teria pedido ajuda.

 

Perdeu o Reino imperial português o seu rei, esse nobre muito jovem visionário, um pouco louco como ficou conhecido na nossa História, homem com carácter fervoroso na crença católica e apostólica romanas, permanentemente treinado para a luta e para a caça, e pusilânime no relacionamento com mulheres, assim como foi perdida toda a elite da força militar que aí permaneceu destroçada, ficando um regente a gerir o País às ordens da dinastia dos Filipes de Espanha durante sessenta anos.

 

Sujeitámo-nos à perda da independência e à submissão ao reinado dos reis sucessivos da dinastia dos Filipes, sucessores pelo lado matriarcal do trono luso, sujeição que pouco nos valorizou e muito menos glorificou (antes pelo contrário, só nos prejudicou e muito), com excepção para (como nota positiva) a construção compulsiva duma série de fortins ao longo da nossa costa, que se estendeu do Algarve ao Minho com o intuito de nos protegerem dos ataques constantes e terroristas dos piratas e corsários árabes e turcos. Mas este jugo a favor de Castela arruinou parte do nosso Império, o mais amplo e vasto do mundo em 1578 no tempo de D. João III. Na verdade, esta subjugação a Castela viria deste modo a trazer enormes reveses e perdas para o Império luso, pois os Filipes, irreflectidamente, envolveram-se em conflitos com a Holanda, França e Inglaterra não só em terra como também no mar. Após a perda de numerosas feitorias e praças-fortes por causa dessa conflitualidade filipina, Portugal viria a restaurar a sua independência em 1654, sessenta anos depois da perda da independência, recuperando o Brasil, donde proveio enorme quantidade de ouro no fim do sé. XVII. O Brasil teve uma enorme importância na vida desta Nação lusa, de tal modo que chegou a ser sede da corte portuguesa em 1808, protegendo-se aí das invasões napoleónicas, e nessa ocasião foi declarado pelo imperador, aí refugiado, a denominação ao Império como o ‘Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves’. Isto aconteceu no reinado de D. João VI, pela primeira vez um rei europeu ir reinar para os trópicos capricorneanos em Novembro de 1807. Este facto, por outro lado trouxe muitos benefícios na antiga colónia portuguesa, especialmente nas áreas da Administração, da Justiça e da Formação colegial e universitária, para além dos aspectos culturais e artísticos.

  

Voltando outra vez a Marrocos nesta crónica, El Sadir, da dinastia Saadi, quis perpetuar essa vitória da «Batalha dos Três Reis», construindo em Marrakech o Palácio com o seu nome, enorme fortaleza hoje arruinada, mas mantendo ainda altas muralhas, onde nidificam cegonhas em ninhos que mais parecem grandes açafates ou canastras com a amplitude dum trono, onde caberia certa e ragaladamente um xeque - «sheik» - por mais gordo que fosse - observem a nota de rodapé que redirecciona o exposto para estes pormenores murais. Na realidade, visitei-o em pormenor, logo à entrada do lado esquerdo sobressai um enorme cadeirão com degraus do género dum trono real preciosamente trabalhado em madeira nobre, ali exibido, o mais célebre do mundo árabe; percorri os labirintos do seu subsolo com cubículos para a criadagem provavelmente recolher-se quando pernoitasse, supus eu, os lagos à superfície são enormes, da dimensão dum campo de ténis ou de futebol de salão, há laranjais e jardins entre os lagos, roseirais… e não faltam visitantes de várias nacionalidades de máquina fotográfica em punho a fotografar todo o monumento arruinado e despojado do seu melhor. O Palácio durou um século, uma vez que outro sultão conquistador, mandou desmontar e levar todo o seu recheio, rico em ouro, levando todo esse espólio para Meknés (cidade onde estive há onze anos numa viagem em que percorri de automóvel todo este País - mesmo a desértica Ouarzazate); Meknés cidade mais a Norte, mas igualmente famosa pela sua gastronomia e a sua cultura vinhateira, com monumentos dignos de realce, mudando esse Sultão a capital para essa cidade, deixando o Palácio El-Sadir desta maneira ao abandono e à ruína, assim como a própria cidade de Marrakech. Mas se este está em ruínas o mesmo não acontece com o Palácio da Bahia, e também o Museu Dar Si-Saïd, construções do séc. XIX, que conservam no seu interior e exterior obras-primas desta época.

 

O meu principal fito nesta viagem foi mesmo visitar vestígios de artigos da nossa História, e teria tido enorme gosto especial em visitar o local onde a batalha dos três reis se efectuou: ver crânios, tíbias, perónios, tarsos e metatarsos, esqueletos, ossos corroídos. putrefactos e esburacados pela erosão do tempo decorrido, objectos ferrugentos da luta, quebrados no fervor da luta, esqueletos de cavalos, armaduras e armas dos nossos guerreiros, mas não os encontrei nem no Palácio de El Sadir (em ruínas), nem nos outros locais monumentais que visitei. É que se calhar com um pouco de sorte poderia ter reconstituído (reconstruído) o nosso rei morto sem fama nem glória, e por artes mágicas poderia ter-lhe dado vida, e, depois, trazê-lo novamente para Portugal numa manhã de nevoeiro, que é a mais propícia para os encontros dos primeiro, segundo e terceiro graus. Ele na verdade é uma fantasmagoria enevoada que embacia a nossa história ímpar cantada primorasamente por Camões; e, enfim, talvez ele nos salvasse da miserável condição que alastra por cá, topo em que nos estamos a tornar de dia para dia: uma Nação que foi o Primeiro Império Mundial colonial global e se tornou no Terceiro depois do reinado dos Filipes de Espanha pelas razões já explicadas; um Estado que conflui hoje num rectângulo pequeno «à beira mar plantado» ou espatifado e pilhado com dois arquipélagos aí no Atlântico à deriva, e que só por muita sorte não pegam em armas para nos dar uma lição de lisura e ética, derrotar esta massa de povo informe, e destronar a coroa democrática artificial, uma invenção que pouco tem da sua origem grega antiga, que nos governa numa decadência que engrossa todos os dias com especial relevância para uma corrupção desenfreada, desenvergonhada, infame… Perdoem, no entanto, o devaneio bem (a)firmado com tanta ironia e com algum sarcasmo à mistura, mas é fruto verbal saído como confissão amarga, um lamento incontido cheio de azedume, pelo Estado a que esta Nação chegou para desgraça de todos nós numa regressão cultural e política sem remédio nem analgésico, numa abstenção cívica estúpida paralisante delirante para quem a contempla pelo lado de cima, lá do topo da Serra da Estrela, ou no centro geodésico do País, localizado em Vila de Rei no Ribatejo com um miradouro mirabolante. ó Junqueiro, ó Eça, regressai ao mundo dos vivos e desentarrai os nossos melhores antepassados, aqueles que sabiam o que era servir uma Nação pelo exemplo das maiores virtudes: a honestidade exemplar, a Ética na governação, saber servir não como um servo, porém como um serviçal em prol do Bem Comum. Tivemos tantos bons exemplos, e nomeio ao acaso o Primeiro Presidente da República Manuel Arriaga, que nos presidiu por pouco tempo obviamente, dado que os abutres nunca desarmam e rondam sempre por perto dos ambientes palacianos, e esse tão bom quanto mau estadista de Santa Comba Dão, que apesar da sua teimosia,  falta de visão do futuro colonial, meio-campónio (como lhe chamava Franco do alto da sua arrogância e petulância), todavia, todavia sim, um homem íntegro, que deixou na sua conta bancária meia dúzia de patacos que não comprariam certamente uma pequena leira em Trás-Os-Montes ou na Beira interior, quanto mais vivendas de luxo, andares de luxo, em condomínios luxuriantes, jeitosos e belos palácios aburguesados como acontece com os nossos governantes de hoje com ordenados que não não chegam para tanto.

 

Regressando novamente nesta crónica a Marrakech, e relevando pela repetição, ideias já levemente aqui afloradas, o Palácio de Badii, hoje arruinado (como já disse mais do que uma vez), foi mandado construir no fim do séc. XVI pelo sultão Saadien Ahmed el-Mansour para celebrar uma vitória retumbante sobre o exército português em 1578, nesse combate surrealista (também termo «avant-la-lettre»), conhecido pela «Batalha dos Três Reis» como já referi. Porém, o Palácio que se encontra em boas condições para ser visitado é o da Bahia, obra-prima da arquitectura marroquina, cuja construção remonta ao séc. XIX, como a maior parte dos Palácios árabes, actualmente em bom estado desde esse século. Comporta belos jardins e lindos pátios, assim como compartimentos ricamente decorados. O Museu Dar Si-Saïd traduz a mesma arquitectura, e está dotado dum jardim encantador e repousante; ele está consagrado à arte marroquina com tapetes, cerâmicas, armas e jóias, alguns deles centenários. Noutro Museu, o de Marrakech do séc. XIX, igualmente, existe muita da arte contemporânea nativa e expõe lindos poemas dum conhecido poeta actual radicado em França (poemas dele, com a sua autoria, podem ser lidos nos fotogramas já referidos, e cujo «link* está no rodapé desta crónica). Interessante este acto de amor pela Poesia nas Arábias; expô-la ao lado de outras formas de arte (escultórica, pictórica, monumental, arquitectural, artesanal, musical).

 

E, também, facto relevante é que estejamos onde estivermos, vemos o minuete da Koutoubia com 77 metros de altura, edificado em cima duma vasta mesquita, símbolo da dinastia dos Almohades.

 

Como nota curiosa e como todos sabem os árabes proíbem a visita aos seus lugares de culto aos estrangeiros, o que nos deixa frustrados por não os podermos admirar em pormenor. Este atraso cultural é chocante para um cristão, ou para um visitante de qualquer outra religião. Efectivamente, o normal, em qualquer parte do mundo, é que os templos religiosos ou artísticos sejam admirados e amados com o respeito que lhes é devido.

 

Regressando ainda ao Império português, ele começou em 1415 com a conquista de Ceuta e pôs fim ao domínio dos Mérinides, aquando da última tentativa, coroada de êxito, da reconquista espanhola, também ajudados por algumas das nossas forças armadas, ocasião em que «nuetros hermanos» saquearam Tétouan, vingando-se dos constantes actos de pirataria perpretados sob a égide dessa ampla tribo dominadora que empestava os mares num terrorismo que dizimava bens e populações. Foi o tempo em que os mouros estavam divididos em duas importantes etnias rivais: os Ouattasides radicados em Fez e os Saadiens em Marrakech. Destaque-se que no início do séc. XVI, os portugueses detinham várias praças fortes no litoral mediterrâneo e na foz dos rios da costa atlântica, tendo sido também o último País a deixar o Norte de África, depois dos Alaouites nos expulsarem de Mazagan (hoje El-Jadida), cidade onde há vestígios por todo o lado da nossa presença: a fortaleza, o nome dos edifícios e ruas, « La Ville Portuguaise» aí mencionada nas toponímicas placas indicadores dos lugares a visitar, a cisterna, onde Orson Welles realizou momentos de um filme  célebre, as canhoeiras (o português que a visita fica muito orgulhoso do seu passado, e damos graças à humanidade por os marroquinos conservarem estas memoráveis relíquias históricas no seu solo pátrio, um respeito por nós, que não se vê em todo o lado), e isto sucedeu sob o reinado de Sidi Mohammed, construtor de Essaouira com um areal espectacular (hoje praia internacional referenciada para a prática de Surf, WindSurf e KiteSurf), e unificador de Marrocos tal como hoje o conhecemos, mudada a capital para Meknès, declarada pomposamente como a «Versailles» marroquina, com outro mérito de sobejo para este Sultão: ele estendeu o seu império para sul até abranger o Senegal. Meknès já não é mais a capital, o útimo Sultão falecido mudou-a para Rabat, onde está sepultado num mausuléu que é obra-prima da arte marroquina.

 

Para finalizar, direi apenas mais isto, que não me parece displicente: a ideia de trazer de volta El Rei Dom Sebastião, francamente, e agora falando muito seriamente, não ajudaria muito a que Portugal fosse diferente do que é hoje; hodiernamente, ele é o que todos sabemos que é. Um povo que falha constantemente na escolha dos seus líderes numa democracia mal amanhada, mal cuidada, mal remendada, mal copiada, mal consolidada, cheia de tiques tirânicos, um povo plastificado que se esqueceu da grandeza em que viveu no tempo de Dom João III, um povo amalucado que foi e vai decaindo de ano para ano, de lustro para lustro, de decénio para decénio, de geração para geração, de século para século, após o desastre marcial de Alcácer-Quibir em 1578; e sobremaneira desde a queda da monarquia, uma populaça inerte, apagada, triste, fadona e fodilhona, mulherenga, traquina e mal instruída... e, na última vaga, até homenenga para coincidir com a mulherenga em pé de igualdade, ou há igualdade ou há barulho e violência doméstica, mulher a malhar no macho, uma turba aparvalhada que delira com o futebol, que peregrina de joelhos anualmente para Fátima a pedir mais uns milagres para compensar o martírio da peregrinação,  a rezar fervorosa, devotamente, com dinheiro e jóias metidos ardorosamente na caixa das esmolas espalhadas por todo o lado, especialmente nos santuários, valores dados como quem compra um produto de consumo miraculoso, uma espécie de banha da cobra vendida nos arraiais populares, a compra milagreira pela saúde sua e dos seus parentes e amigos, uma mole humana disforme que gosta da pinga todos os dias, durante e depois do trabalho, e vem de zorro e ébria para casa no regresso das festas e das romarias, uma massa amorfa que ainda se comove com o fadinho da desgraçadinha ou do aleijadinho, adora as músicas ‘pimba’, soadas por todos esses bairros pobres das nossas urbes, numa voz estridente, chorando comovidamente com os dramas das telenovelas, motivadoras de longas tagarelices de soalheiro até mesmo entre a pequena e média burguesia daí provindas, nessa bisbilhotice fátua e atabalhoadamente incluída, um barro humano mal cozido que vota no seu partido, esse que mais promessas faz pela sobrevivência dos indígenas, sem nunca as concretizar, votando como votaria no seu bairrista clube de futebol, uma matéria humana insensata e parva que é capaz de votar num político que sabe ser desonesto, criminoso, autêntico 'gangster', tenha ou não tenha sido julgado em tribunal duma Justiça que não funciona, por se apoiar (e não só) numa legislação cheia de vícios, truques e ambiguidades a salvaguardarem da punição severa os poderosos dos partidos, dos oligarcas. dos plutocratas, pois, ela é e pertence aos ricos muito ricos, que cada vez mais se ostentam obscenamente em sociedade, com leis votadas pelos adormecidos deputados papalgos do Parlamento, ou simplesmente decretados pelos ministros subservientes no beija-mão, videirinhos quanto baste e apoantes incondicionais do chefe do governo, seja ele qual for. Uma mole humana, massa medrosa e relaxada que avança cega e à toa para a cultura zero, com nula ambição, vendo o seu suor a ser sugado pelas sanguessugas do costume.

 

Contudo, ou muito me engano, ou acertarei em cheio - o seu destino desta massa amolecida em barro mole tem poucas saídas: muito possivelmente vir a ser uma colectividade lusa submetida como um protectorado de Espanha, que tem uma administração autárquica e social muito superior à nossa, e vive no dia-a-dia muito melhor do que nós, ou um protectorado de outra potência qualquer, quiçá chinês, já que este povo híbrido nos vai comprar a nossa dívida soberana à Banca estrangeira, ou acabar, no pior dos casos advenientes por ser uma ex-Albânia reduzida à vida pobre e miserável, como quando esteve sob o jugo comunista; sintomaticamente, até esta Nação (a Albânia) progride hoje a olhos vistos com muito mais vigor do que nós; nós – esta inconclusa gente um pouco mais ou menos civilizada, na qual me incluo por cá ter o meu poisio, e que tende a projectar-se fatalmente para vivenciar o que é a pobreza franciscana. Pode ser finalmente uma opção que até lhes saiba bem, uma vez que também se é feliz no estado da pobreza ou na miséria; há indivíduos a viver debaixo das pontes, que não trocariam a sua situação por nada deste mundo. Se lhes saísse a sorte grande, morreriam de certeza de enfarte do miocárdio. O dinheiro é para quem o merece e faz dele fausto permanente. E não digo o resto, que dói como o caraças.  

 

07 de Janeiro de 2011-01-08

 

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 Nota: nos links do fim do rodapé em baixo poderá esclarcer-se sobre o que foi o Império português na sua maior pujança e grandeza, tendo sido o primeiro Império mundial pela sua vastidão intercontinental e transoceânica no reinado do Imperador Dom João III

 

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Nas fotos do mural de Armando Figueiredo aparecem todas as construções, mesquitas, palácios e museus, referidos nesta crónica no que diz respeito a Marrakech:

 

http://www.facebook.com/armando.r.s.figueiredo?ref=profile#!/album.php?aid=37058&id=100000302214875

 

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Documentação de suporte facilitada generosamente por alguns portais do mundo cibernético com ilustrações adequadas aos temas expostos:

 

http://www.rtp.pt/gdesport/?article=126&visual=3&topic=1

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_de_Portugal

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Portugu%C3%AAs

   

http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alc%C3%A1cer-Quibir

 

http://www.youtube.com/watch?v=ZBPeHA7Aelo&feature=player_embedded

 

http://www.youtube.com/watch?v=buqKnugJ77M

 

http://www.youtube.com/watch?v=ljQCbG4vvKA&NR=1

 

 

 

 

sinto-me: bem,obrigado e recomendo-me
música: Antena 2, RDP
publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 09:13
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2 comentários:
De Maria a 19 de Janeiro de 2011 às 22:23
Viajar como devaneio, num espaço geográfico mais ou menos conotado de belo, é uma opção banal, e que nunca me seduziu. Mas quando a viagem no exterior se transforma num trampolim para a viagem “interior”, então, sim, o protagonista-narrador transcende os limites sempre tão exíguos do passeio turístico e ascende ao plano superior do Pensador.
E é o que acontece com esta crónica de Rodrigo da Silva. De Marraquexe, faz uma incursão na História de Portugal, para que a Memória se refresque dos eventos que, apesar de longínquos, continuam a explicar grande parte do nosso presente. Com efeito, Rodrigo da Silva, em vez de alheado da realidade concreta e actual (o Portugal presente) – efeito comum nos vulgares viandantes –, dela faz uma análise contundente, denunciando a “choldra” em que quase sempre temos vivido (peço desculpa pelo otimismo!), tantas vezes exposta pelos nossos melhores escritores.
Se em Portugal houvesse mais leitores, estaríamos, por certo, num patamar da evolução sociocultural bem acima daquele em que nos encontramos!
Bem-haja, Rodrigo da Silva, pela enriquecedora leitura que esta crónica me proporcionou, quer pela sua vertente reflexiva, mas também pelo riquíssimo registo discursivo que a enforma.

De armando figueiredo a 24 de Outubro de 2013 às 10:14
Obrigado, Maria, por tão apaixonante sustentação. Beijos, RS

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