Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

UMA CRÓNICA PERFUMADA

UMA CRÓNICA PERFUMADA

de Rodrigo da Silva

 

Se a aspiração congénita do homem, a nível mundial, é viver e morrer dignamente, então tentemos todos obter esse merecimento fundamental. Não digo isoladamente, mas conjuntamente. Sei que não cheirarão este simples perfume floral os analfabeto ou o iletrado, ou os alfabetizados disfuncionais. Nem grande parte dos humanos que não possuem computador, e outros que o tendo só o usam para coisas muito práticas de busca científica, ou investigação académica, ou namoro e conversa fiada. Porém, sei que os que viajam na ciberliteratura, mais tarde ou mais cedo virão analisar este chão pisado.

 

Hoje vou falar de direitos fundamentais, e não da comida de que gosto, dos cinemas que me animam, dos futebóis que arrebatam os aficionados, dos amores trágicos que causam refregas onde entra a faca e o alguidar. Não falo de teorias económicas e políticas que nunca funcionam para todo o sempre, ou demagogos que são idolatrados ou odiados pelas consciências provindas do estatuto de boa ou má formação e pior cidadania. Não falo dos crimes dos que violam crianças, adultos e velhos, que roubam pelo terror da ameaça armada, e que matam quando encontram obstáculos a impedir os seus propósitos.

 

Ainda que os direitos fundamentais do homem existam em muitos países, eles não são respeitados na maioria. A tirania nebulosa anda mais ou menos disfarçada por este mundo fora e elimina as vozes críticas, e é uma força obstrutiva à inovação, ostracista aos reformadores das mentalidades, e incluo nessa tirania a democracia formal, onde impera o demagogo (esse que engana o povo, e abotoa-se com botões de ouro, e ainda goza com a sua prepotência os mais avisados e cultos).

 

Viver e morrer dignamente, eis a questão. E preocupo-me com a morte já que a vida vivida não possui retorno, mas também não falo das honrarias fictícias deste mundo, das pompas de circunstância, as mais fúteis, excepto as que honram homens de boa estirpe e melhor índole; as fictícias são praticadas do mesmo modo, e são tão ilusórias que às vezes fazem confundir caras com caretas. Não nos esqueçamos que há espertalhões e figurões que se aproveitam das fraquezas das massas ignaras, da populaça inculta, para as dominar e subjugar, repartindo migalhas de pão que sobeja da mesa em acções de ilusória solidariedade (a caridadezinha curiosamente produz notoriedade). Repartir migalhas do pão sobejado não é o mesmo que a repartição da riqueza acumulada à custa do esforço de todos os cidadãos a nível geral.

 

Os melhores homens deste mundo, assim como do passado nem sempre ficam, e nem ficaram na História das civilizações, e são apenas conservados em memórias curtas, teses ou antologias com pouca divulgação, que o tempo vai apagando inexoravelmente (lembrem-se do caso ocorrido durante a segunda guerra mundial do cônsul Aristides de Sousa Mendes). Pergunte a um peão da sua rua por ele, e ninguém sabe quem foi, o que ele fez, e a maldade e o opróbrio pelos quais passou na sua época pelo poder instituído. Israel, no entanto, construiu um monumento à sua memória. Outros mantêm-se recordados pela sua luta a favor das grandes transformações da Humanidade e contribuíram para a sua evolução. Péricles, Platão, Sócrates, Pedro Nunes, Gandi, Franklin, Luther King, Descartes, Luthero, Freud, Gorbatchev, Teresa de Calcutá, Mandela, Einstein… Tantos outros que não cito  para não me alongar! Cada um manteve no fundo o espírito do filósofo, do cientista ou do humanista que teoriza, e cujas teorias foram accionadas por eles mesmos ou pelos convictos seguidores das novas razões. Não olvidando ainda que outros percursores e investigadores já anteriormente lhes tinham preparado o terreno no qual foram glorificados, contudo, sem atingirem o desfecho ou a conclusão com o brilhantismo da obra totalmente acabada a que chegaram alguns dos retrocitados .

 

Uns viveram e morreram dignamente, outros na mais vil humilhação. Um até escolheu a cicuta para evitar a indignidade do exílio, outro foi baleado pelo ódio rácico. A alguns não foi rendida a homenagem com a dimensão merecida. Só o tempo corrigiu o erro ou a falta, porque ninguém conseguirá apagar as acções exemplares, ou as teorias que fazem evoluir esta Humanidade e estas são cada vez mais recorrentes.

 

No fundo, não são as honrarias que fazem o homem, ainda que possam causar alguma sensação na turba ignara, dado que os panegíricos não sabem avaliar, em muitos dos casos acontecidos e por acontecer, o valor dos homens. Fazem, isso sim, parte em vários casos da elite duma ribalta passageira que passa ao esquecimento ao fim de um, dois, três anos. Com efeito, o verdadeiro valor é o que perdura por largo tempo depois da morte. A transformação produzida no avanço de psicoarquétipos que melhoram a nossa condição humana é a grande questão dos tempos hodiernos. A tentativa de avanço da ciência psíquica, com boa dose de intuição, à qual se dá pouca importância, é uma luta contra a adversidade cultural causada por más políticas, e serve a uma nova adaptação do homem a um novo estado social, em vias de concretização, elevando-o à condição de cidadão universal dignificado. E os melhores nesta campanha sobressaem pela sua luta pertinaz, apesar de todas as contrariedades que possam levantar-lhes no sentido de barrar os trajectos pessoais para a reanimação das consciências. São estes que, agarrados à vida sem hesitação, criam a possibilidade da satisfação das necessidades fundamentais para a dignificação da vida humana na Terra.

 

Curta, esta crónica como deve ser qualquer escrito ao sabor dum perfume experimentado, nem interessa que tenha qualquer designação, procurou-se apenas alguma fragrância ou essência que possa perdurar como perfume, na tentativa de ninguém se esquecer deste cheiro nos momentos de crise ou hesitação, tanto quanto possa ser admitida na concordância. Apenas isso.

 

Que seja crónica ou não seja, ou seja outra coisa, ou página, ou escrito ao sabor desse perfume mas que seja pelo menos o levantamento no chão estiolado duma flor fresca e bela, oferecida ao receptor (leitor), que também gosta de ler e a quem não cansa a repetição deste perfume. Ideal seria que se cheirasse a essência de vez em quando como quem ouve constantemente, ou sempre que pode, uma sonata, uma canção encantadora, um ritmo de guitarras e tambores extasiantes, ou um “allegro” clássico ou até uma rapsódia húngara. E não é displicente esta afirmação, uma vez que, efectivamente, há artistas que escrevem, arquitectam, desenham, pintam, ou esculpem ouvindo sempre o mesmo trecho musical. E essa situação envolvente inspira, encoraja, dá força e alegria ao que vai nascendo da produção pessoal.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristides_de_Sousa_Mendes

 

http://www.vidaslusofonas.pt/pedro_nunes.htm

 

http://educacao.uol.com.br/biografias/pericles.jhtm

 

http://www.suapesquisa.com/socrates/

 

http://www.culturabrasil.pro.br/gandhi.htm

 

http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u36.jhtm

 

http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u509.jhtm

 

 

publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 23:16
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