Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

UM PORTUGAL COM DONO

 1.ABNEGAÇÃO/2.RESIGNAÇÃO/3.RENÚNCIA

por Rodrigo da Silva

 

1. ABNEGAÇÃO

 

O enfado da submissão à vontade dos deuses e à monotonia sucessiva e excessiva com a exactidão cronológica dos dias e dos meses, dos anos, um sentimento desencorajador, o desconforto por um trabalho mal compensado, mas, mau grado, ou apesar de tais sentimentos, a plasticização de um sorriso sempre aberto, sempre afável, como a pedir perdão duma guerra por coisas que ultrapassam a condição humana indígena e caseira, a busca ansiosa dum aceno amigável, a contrastar com este passo vergado à espinha cansada, sem horizontes entusiasmantes ou risonhos, e, entretanto, o sofrimento das dores próprias mal cuidadas, e também das dores alheias dos familiares, dos vizinhos, dos amigos e dos conhecidos.

 

É assim o flache e o clipe: anos de guerra carnívora, brutal, a segunda grande guerra do recente século passado, o aldeão à frente dos bois ou das vacas, ou das mulas, com a vara na mão e espetado nela o aguilhão com a ponta bem afiada, amarras de couro resistente nos cornos dos animais de cabresto, também a mulada, enfim bestas e agricultores confundindo-se todos no mesmo tipo amassado num só bolo, amalgamado, curtido, e envelhecido antes do tempo próprio, e... o cão ladino, muito vivo... permanentemente o canídeo ao lado (vigia e guarda).

 

Uma sucessão de cenas plagiadas, cópias a fio de anos mal fruídos; a canseira das ceifas, o mourejar da sementeira em tempos de inverno e primavera, o arado a lancetar uma terra madrasta, dura com calhaus à mistura, arado pesado para a besta arrastar e preparar a fecundação do ventre do chão térreo, removê-lo com custo, salpicado pelo suor de bestas e nativos, a preparar a fecundação e a gestação da vida vegetal e larvar, as aves sobrevoando; no inverno era um frio de rachar, e o vento vergastava cabeças mal protegidas; no limite do contraste o verão ardente a esquentar corpos mal lavados e mal cuidados, mal instruídos e maltratados, mentes pouco cultas. Sim, só havia a subcultura popular feita de experiência, a amarga e dura experiência, a subcultura da sobrevivência básica, com estórias de arrepiar o aborígene, mas ostentando este com orgulho um historial de anexins e ditados e anedotas, todos simples, quase lineares quase sábios, a memória do sofrimento abnegado, a sujeição paciente.

 

Era assim na minha aldeia, dez casas, tão iguais quanto dissemelhantes, a aldeia duma freguesia como outras, casas da mesma estrutura tradicional. Todas tinham uma porta a meio, aberta ao tempo e às pessoas que circulavam nas proximidades, duas janelas de cada lado, um sótão a cheirar a fruta madura e cebolas, a minha aldeia de menino, primeiro pobre como os demais, depois rico pelo acaso da prosperidade repentina dos meus progenitores.

 

Da gente da minha aldeia, conservo a imagem da bondade e da bonomia. Gente curvada por espinhas desgatadas, vergados para o chão, a vida do mouro recordado. Do mouro referenciado na queixa do azedume. Ou do trabalho dos vizinhos, quais labregos a norte na Galiza, galego como labrego.Semelhante em carne e osso e alma às gentes do Minho, Trás-os-Montes, Douros, Beiras, Estremadura, Ribatejo, Alentejos, Algarve e Arquipélagos, na ocasião uma visão parecida na amplitude dum império que admitia piores dissemetrias na África negra. Dos bois, da carroça ou do carro, atrelado às bestas, de canga e cabresto, da vara cravada com o aguilhão pontiagudo.

 

2. RESIGNAÇÃO

 

Com o tempo comecei a venerá-la, esta gente tisnada pelo sol e pela chuva, pelas geadas e frios impiedosos, e lembro a panela negra em ferro, ao lume, achas do mato ali próximo, sempre no mesmo sítio, a tampa ora colocada no topo, ora fora da panela, às vezes deixada uma frincha donde exalava o sabor irresistível do caldo; quando confeccionado era saciador da fome milenar. Do pão caseiro o moleiro cuidava, pão gostoso, o melhor sendo o de Ul. Da côdea do pão de milho feito no forno da casa, ao lado da lareira, a carcaça feita de milho e centeio, a bola coberta com três ou quatro sardinhas gordas, melhor a gordura delas que a sardinha, os cheiros únicos oriundos dos fornos a lenha memorizados pela vida fora.

 

Aquelas ladeiras viradas a oeste estavam cobertas de milheirais durante o verão. Os pássaros à volta, em rodopio, mitigavam a sua fome também. Os aldeões praguejavam e enxotavam-nas. Armavam nos campos realejos barulhentos, espantalhos de serapilheira. E as andorinhas vinham com a primavera, e construíam ninhos nos beirais dos telhados; elas enchiam o espaço circundante com penas duma inigualável beleza, o voo era rasante, o pio amoroso, um alvoroço tolerado.

 

Na ardência do verão, os grilos e os ralos, os abelhões vozeavam um cântico ensurdecedor, monótono, repetitivo que adormecia o ambiente. Apetecia mesmo dormitar. Era repouso para guerreiros da luta pelo estômago e pouco mais.

 

Os filhos eram os cadilhos, traziam-nos eles e elas progenitores ao mundo como uma prática obrigatória numa obediência instintiva ao destino secular, mas amavam-nos à sua peculiar maneira animal; porém, mal faziam a terceira classe, bem instruída à força duma palmatória com cinco olhos, para que a dor fosse martirizante, logo iam trabalhar nos campos ou nas fabriquetas que pontuavam aqui a ali com a lentidão das coisas difíceis e complicadas. Alguns tinham um tio padre, e lá iam para um seminário donde vinham mestres em latim, e sabedores de mais algumas coisas úteis, muitas delas inúteis na prática e também na teoria, boa parte desistia a meio ou no fim para cursar Letras ou Humanidades nas Universidades de Coimbra ou de Lisboa. Os poucos mais abastados iam para um colégio para tentarem licenciar-se nos cursos que dão suficiente ou muito dinheiro; mas nem todos conseguiam essa façanha. A herança da rudeza com que eram criados, não lhes desenvolvia o cérebro nem a inteligência nem a imaginação. Na realidade, eles tentavam, os pais sacrificavam-se, olhos resignados, posturas de vencidos por tantas dificuldades, e... um sucesso, por mais humilde e simples que fosse, nunca mais chegava.

 

Se eles eram galegos a mourejar no campo, elas eram mouras a labregarem a sua missão de mães, avós, companheiras, algumas maltratadas, batidas pelos maridos; eles chegavam da taberna à noite embriagados, e, elas, como as mutiladas clitoridianas africanas neste caso pela medrosa renúncia religiosa e cultural à sexualidade, não correspondiam suficientemente aos seus desejos. O acto de amor era desse modo e, por consequência, lunar, subterrâneo, instintivo, imperscrutável, indescritível e um consentimento sujeitado. Só havia uma miríade de estrelas a luzir num firmamento sem afecto. Mulheres silenciosas porque silenciadas com outra palmatória, a da brutalidade, já que bestas todos eram no convívio diário entre a casa e o curral, a estrebaria e o redil, a cozinha e a cama. Todos faziam parte da fauna envolvente, e elas não escapavam à regra. Era uma cena global de resignação. A morte lenta adiada em cada ano no conformismo, por repetições infindáveis. Uma intermitente morte suspensa aos domingos, todos os domingos, revista no Cristo crucificado da Igreja paroquial. Até o São Sebastião agonizava sempre lá, houvesse ou não prática religiosa, ou até festiva, no dia (qualquer que ele fosse) do senhor, este santo no seu altar próprio, cravado de flechas, olhos arregalados do sofrimento extremo, porém, um milagre da natureza humana... a seus pés estava bem ornamentado com flores que as beatas deixavam por bondoso amor e compaixão, sumamente piedosos.

 

3. RENÚNCIA

 

Era o espectáculo da renúncia, o palco do consolo, ir lá todos os domingos e dias santos, feriados e dias de pagamento pagamento de promessas, ver os santos e o deus morrerem na agonia monstruosa. No fundo, era a compensação para a tristeza que lhes avassalava a alma, o resgate de tanta tristeza sentida a doer a existência. Era enfim a salvação: deus pregado na cruz até ao estertor final, acrescentando-se-lhe o São Sebastião trespassado, sem força nem resistência para se soltar do tronco. Um horror, esse que expiava todas as amarguras e dores do corpo e da alma. O horror!

 

O fato domingueiro provinha do dia do casamento que durava até à morte e servia no acto final para lhe revestir o cadáver, na missão do animal cumprida, prolongada na renúncia e no sacrifício.

 

Descalços, pois claro, havia pouco dinheiro na algibeira, havia escassez de tudo, era tempo de ditadores, um deles furioso e louco, disposto a devastar a Europa com um ímpeto sanguinário para subjugar a Humanidade a uma raça. Lá do outro lado do mundo um imperador japonês espezinhava a ferro e fogo a liberdade dos seus vizinhos em nome duma aliança com o nazismo.

 

Porém, mau grado tanta barbaridade, tanta renúncia, tanta sujeição, confesso-vos que foi tempo também para belas recordações. A vizinha do lado oeste a convidar para a prova do seu caldo de couves com conduto, um pouco de chouriço ou carne de porco entremeada provinda da salgadeira, ou unto misturado com batatas, sal quanto bastasse, e a aceitação pela curiosidade, pela partilha; o convívio granjeava o sabor da generosidade, da franqueza, da beleza de corações ansiosos por ternura, fosse ela infantil ou outra qualquer, da beleza do coração amargurado na maceração de interstícios e vísceras, instintos e líbido, habituados à escravidão, esta - a da condição humana milenar, a dignidade renunciada; e esse convite da vizinha era a evasão à azáfama do trabalho dela decorrido de sol a sol, um suor que cheirava a flores do mato bravo.

 

Alguns bebiam para matar o sabor da amargura, e, elas, também, às escondidas. Era a desgraça de viver num País de pobres, apenas compensada, resgatada, expiada ao domingo. Eles vestiam então o melhor fato, calçavam os melhores sapatos, os do matrimónio na Igreja local. Elas vestiam-se de negrume com lenço mourisco na cabeça. E, entretanto, nos entre tantos programados para domingos e feriados e dias festivos, ouviam o vigário dizer que houve um escravo livre, livre e libertado que foi barbaramente espancado, coroado de espinhos, vergastado por verdugos, apupado por turbas sádicas, crucificado por algozes, depois de sentenciado à morte, lavadas as mãos dum governador romano chamado Pilatos. Um pobre coitado, atraiçoado pelo enforcado da figueira depois de receber os trinta dinheiros. Cumpria-se o sangue escravo dum Ideal cheio de Bem que nunca viria a ser cumprido. Essa era a maior resignação, a expiação máxima. E o horror dava alento aos que dormiam um sono pesado pelo cansaço da jorna. Eram assim: os aldeões da minha aldeia idolatravam a morte sofredora, injustiçada, a que tentou expiar todos os males deste mundo. Contudo, continuamos ainda à espera do cumprimento da profecia.

 

Depois da grande guerra, a este povo, essencialmente rural na ocasião, foi presenteada, como prenda de estoicismo e misticismo, uma outra, a colonial, mas dessa tratarei noutro fascículo.

 

E ainda hoje num "renovado" século já com uma década de grandes convulsões económicas, só poucos sabem quais são as Virtudes humanas imprescindíveis para haver dignidade neste mundo, ou melhor, poucos reconhecem o que é a Ética social, sobretudo a Ética na Política, sendo esta domada e domisticada, facilitada e protegida ao extremo, em regime de retribuição particular ou grupal, pela Alta Finança, que não é mais, dito doutro modo, do que a Banca internacional e obviamente (até também por sujeição, contágio e simpatia) a nacional . Portugal teve sempre dono, uma elite trepassada de mão em mão. E alguns, os mais avisados e atentos, mais sabedores, sentem-lhe o peso, e resignam-se também à pacatez dos alienados submissos; finalmente não nos cansamos de ouvir dizer pelos fazedores de opiniões, que este é um País de brandos costumes, gentios mansos como os bois, aguilhoados quando algum deles se tresmalha.

publicado por cronicas-de-rodrigo-da-silva às 16:26
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