Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

ENSINAR / APRENDER LITERATURA

ENSINAR / APRENDER LITERATURA

 

Ensinar Literatura não é o mesmo que aprender Literatura; claro que pode a primeira acção pedagógica complementar-se com a segunda actividade: ensinar e aprender. E podem não ser também apenas estas duas acções a interferir na estratégica formativa, se lhe acrescentarmos outra, como seja a recorrência dum percurso que envolva a área da pluridisciplinaridade: uma estreita (quanta possível) conexão com a Arte nas suas diversas formas – a Música, a Pintura, o Teatro, sendo recursos e suportes que abrangem as técnicas de Representação, da Récita e da Eloquência. Ainda pode avançar um pouco mais neste domínio, se a ela somarmos conhecimentos básicos de Filologia, incidindo nele os esclarecimentos necessários provindos do Latim e do Grego antigos.

 

Quer este preâmbulo atrás-dito que a Literatura pode ser ensinada, recorrendo, se for caso propício, a uma auto-aprendizagem permanente e está nas mãos do Mestre ensinar também a aprender. Não é uma tarefa difícil ou complicada, uma vez que é isso mesmo que fazemos desde tenra idade. Mas, havendo no exercício abertura e liberdade, a resposta aos desafios que venham a ser colocados darão vivacidade e entusiasmo à aproximação espiritual e cultural, assim como ao envolvimento afectivo entre os discípulos e o Mestre.

 

Um ensino-aprendizagem objectivado essencialmente para os alunos tem de os considerar também agentes intressados em todo o processo da aquisição de novos conhecimentos. Porém, cabe ao Mestre avaliar as capacidades de cada um deles e prosseguir com objectivos ajustados numa ambiência colectiva, que só se pode sopesar na presença do conjunto constituído. Considerada, sem ponderação, será precipitada, e pode ser frustrante e igualmente angustiante. Pode até haver no grupo talentos ainda imersos, embrionários ou alguns já minimamente revelados, que só essa avaliação ponderada e presencial poderá fazer deflagrar, depois dos desafios serem suscitados, e na fase em que sejam considerados necessários. Essa tarefa cabe ao Mestre, eventualmente contribuída pelas sensibilidades pertencentes à composição colectiva, formada (no caso do Ensino Universitário) no princípio aleatório gerado pelo aparecimento espontâneo duma turma, não sendo escolhida por modelos rígidos, nem por escolhas do docente com critérios pré-estabelecidos. Se ela é, como pode ser qualquer turma, formada com as mais variadas características aleatórias, é com ela que o Mestre pode e deve trabalhar, cumprindo metas e objectivos finais possíveis que podem ser delineados, ainda tendo em consideração as suas identidades: capacidade, ideário, formação e gostos pessoais, para que o Professor se sinta a conduzir num terreno firme e fértil, pressupostos estes aquilatados com a máxima abrangência possível nesta perspectiva didáctico-pedagógica: despoletar quanto necessário o seu avanço na progressão colectiva deflagrada, uma progressão que fundamentalmente envolva o grupo discente, assim como o grupo docente, e as contribuições e partilhas que se possam obter duma endogenia vizinha: os outros Mestres companheiros e eventualmente outros alunos da mesma Universidade.

 

A afectividade do Mestre poderá compreender o amor agapiano que tende a enformá-lo na procura da perfeição possível de ser alcançada, pois que na totalidade é muito capaz de ser impossível, contudo assumindo sempre que se pode caminhar no seu sentido.

 

George Steiner no seu livro: ERRATA: revisões de uma vida* começa o capítulo Nove com a seguinte asserção «Tive sorte com os meus professores. Conseguiram convencer-me de que, no seu melhor, a relação entre professor e aluno é a realização de uma alegoria de amor desinteressado.» É a esse amor desinteressado que eu chamo agapiano; o amor remotamente desvendado na cultura helenística, expandida em boa parte do nosso mundo, e que teve na cultura com base cristã no Ocidente, como é sabido, o seu máximo de esplendor espiritual em Jesus Cristo que o corporizou nas formas das cosmovisão e acção vital, ao servirem de exemplo a toda a Humanidade, sem com isto querer alienar que também houve outros-alguns neste planeta que enveredaram por rumos, rotas e percursos semelhantes; são ainda poucos, muito poucos, uma vez que os contamos pelos dedos da mão.

 

Esse amor agapiano seria bom que fosse considerado na relação com os variados Mestres universitários, tão durável quanto puder ser, ainda que numa relação condicionada por factores relacionados com a precariedade da vida, contudo que seja sempre numa relação de confiança e de entreajuda: ademais, uma relação aberta, educada e frontal.

 

Termino com a seguinte alegoria, a propósito do que foi revelado até aqui: uma orquestra é vivida por várias sensibilidades humanas, exímias no solfejo e no toque de diversos e variados instrumentos; todavia, para que ela (orquestra) arrebate emocionalmente do seu conjunto um auditório, e possam todos eles (instrumentistas e auditores) atingir a máxima beleza e harmonia musicais, ela (orquestra) precisa duma vivência em conjunto, orientada por um Mestre bem capacitado e com as suas qualidades reconhecidas por quem percebe, quanto baste, da área artística a que se devotou.

 

*(Edit. Relógio d’Água)

 

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